Capacitação na assistência a pessoas com doença falciforme

Estudo que analisa a ocorrência de óbitos em crianças com doença falciforme aponta a efetiva contribuição da descentralização da assistência na atenção primária à saúde

 

 

Publicado em Divulgação científica, Saúde

27 de março de 2014

 

Foram cerca de 16 mil quilômetros percorridos pela enfermeira Alessandra Palhoni Sabarense para entender o contexto dos óbitos registrados em crianças com doença falciforme, uma das doenças hereditárias mais comuns no Brasil, no estado de Minas Gerais.

Alessandra buscou caracterizar os óbitos das crianças triadas pelo Programa de Triagem Neonatal de Minas Gerais (PTN-MG) nos anos de 2005 a 2012 e comparar as ocorrências das crianças nascidas entre 1998 e 2004 com as nascidas entre 2006 e 2012, a fim de descrever possíveis mudanças em relação à qualidade da assistência prestada. O estudo resultou em dissertação defendida junto ao Programa de Pós-Graduaçãoem Saúde da Criança e do Adolescente da Faculdade de Medicina da UFMG.

No período analisado foram identificados 193 óbitos, 7,4% do total do número de crianças triadas pelo PTN-MG. Com base nesse banco de dados, Alessandra iniciou essa busca pelas famílias das crianças, para realizar entrevista presencial.

De acordo com as respostas, a enfermeira, também tutora do curso de educação à distância do projeto Doença Falciforme: Linha de cuidados na Atenção Primária à Saúde,  percebeu que nos seis anos recentes avaliados o falecimento teve um leve aumento na média de idade, passando a ocorrer com até cinco anos, enquanto nos anos anteriores ocorria com até dois anos. “O aumento da idade pode ser pela melhora do diagnóstico precoce, com a realização do teste do pezinho em até cinco dias após o nascimento, e a busca ativa no não comparecimento nas consultas das crianças diagnosticadas”, explicou.

Apesar do aparente dado positivo, Alessandra relatou inúmeras surpresas e preocupações como o fato de ainda morrerem crianças em Minas Gerais por eventos fatais como infecção, em primeiro lugar, e em segundo como “causa indeterminada”, o que reflete a falta de conhecimento dos médicos que atestam os óbitos.

De acordo com a pesquisadora, a maioria das famílias expõe a deficiência ao conhecimento dos profissionais. “Alguns não valorizavam a percepção dos pais quando afirmavam que o filho estava tendo um derrame, por exemplo. Muitos não sabem o que é a doença ou como cuidar da criança, principalmente quando ela chega com evento agudo”, declara. “Atrasos no encaminhamento, falta de exames e de medicação na ambulância, são erros primários”, continuou.

Além dessas, pôde-se notar outras complicações como o acesso da residência em relação ao serviço de saúde, pela própria questão da dificuldade em conseguir um transporte; infraestrutura precária ou insuficiente, incluindo as ambulâncias, que junto com as residências, totalizaram 21% dos locais de óbitos; a questão do baixo nível socioeconômico das famílias (90% apresentavam renda inferior a um salário mínimo) e a presença de baixa escolaridade. No interior do estado e na zona rural esses problemas ainda se acentuavam.

Alessandra conclui apontando os três pilares para alcançar melhores resultados: o desenvolvimento econômico e social do Estado, a capacitação da equipe e dos familiares e a melhora da infraestrutura da saúde básica e de hospitais que muitas vezes não contam com disponibilidade de bolsa de sangue, por exemplo.

Capacitar para melhorar

De acordo com a pesquisadora, alguns eventos agudos podem ser resolvidos na unidade básica de saúde (UBS), enquanto os mais graves devem ser encaminhados para o hospital. Dessa forma, a capacitação se torna importante para que a equipe, inclusive médica, saiba tomar a conduta inicial. “Com capacitação e fornecimento de infraestrutura básica necessária, acredito que seja possível diminuir a mortalidade dessas crianças”, afirma Alessandra. Um dos objetivos do trabalho, para ela, também é alertar a equipe de profissionais e mudar o fato de muitas mães irem direto para o hospital, mesmo que mais distantes de sua residência, por não darem credibilidade às UBS.

Em 2010, foi iniciado, no Centro de Educação e Apoio para Hemoglobinopatias (Cehmob-MG), o curso de educação à distância no qual Alessandra é hoje tutora, com o objetivo de capacitar os profissionais da atenção primária à saúde na assistência às pessoas com doença falciforme. A primeira turma contou com uma equipe multiprofissional, e Alessandra estava entre os 18 participantes.

O curso, que abrange os cuidados com crianças, adolescentes e gestantes, também discute a realidade do município, sugerindo propostas de melhoria para o atendimento, considerando as características e dificuldades locais.

Até o primeiro semestre de 2013, cerca de 530 profissionais foram aprovados no curso, abrangendo 85 municípios. A tendência é aumentar, já que além de capacitar ele também forma facilitadores que repassam o conhecimento para as equipes.

Para Alessandra, essa é uma forma de motivar os profissionais do Estado como um todo para ter uma atenção maior e melhor com os pacientes, contribuindo com a redução da mortalidade e uma sobrevida maior das crianças. “Espero continuar divulgando o trabalho e mostrando os resultados para os profissionais da atenção primária para, a partir daí, tentar atingir todos os municípios, principalmente do Norte de Minas, que teve a maior incidência de diagnósticos com doença falciforme e de óbitos”, declarou.

Serviço

Título: Análise comparativa da ocorrência de óbito em crianças com doença falciforme triadas pelo Programa Estadual de Triagem Neonatal de Minas Gerais nos períodos de 1998-2004 e 2006-2012

Nível: Mestrado

Autora: Alessandra Palhoni Sabarense

Orientador: Marcos Borato Viana

Programa: Saúde da Criança e do Adolescente

Defesa: 27 de fevereiro de 2014

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