Violência sexual contra a mulher e seus desdobramentos

Notícia publicada no Saúde Informa


Pesquisa qualitativa analisou impactos físicos, emocionais e sociais em vítimas de violência sexual por até um ano após o evento


A agressão sexual, considerada um problema de saúde pública pelo Ministério da Saúde, leva a conseqüências graves para a saúde física, psicológica e social da vítima. A questão foi apresentada na tese de Eliara Froes, defendida junto ao Programa de Pós-graduação em Saúde da Mulher da Faculdade de Medicina da UFMG. A motivação veio a partir de sua experiência em 24 anos de assistência psicológica em hospital público, com dedicação à saúde da mulher.

“A violência sexual contra as mulheres, assim como qualquer outra violência contra qualquer indivíduo, deve ser estudada e gerar conhecimento que ajude a diminuir a sua ocorrência. No caso específico da mulher, há maior importância do estudo ser realizado em nosso país devido às características culturais específicas”, aponta o professor Antônio Carlos Cabral, orientador da tese.

[caption id="attachment_42468" align="alignleft" width="300"]Pedido Larissa - Imagem da Capa Foto: sxc.hu[/caption]

A tese aponta para uma preocupação científica para as alterações ocorridas após a violência sexual, resguardando a individualidade de cada mulher. “O desafio é construir a própria vida, defender o direito ao próprio corpo, pensado, vivido e experimentado autonomamente, segundo as necessidades de cada um”, diz Eliara.

O estudo

“Pessoas violentadas sexualmente ficam mais vulneráveis a outros tipos de violência como a prostituição, uso de drogas, distúrbios sexuais, depressão, suicídio, doenças sexualmente transmissíveis ou gravidez indesejada”, afirma a psicóloga. Segundo ela, o estudo possibilita quantificar as consequências para as vítimas.

Para isso, ela desenvolveu um questionário respondido por 33 pacientes entre 16 a 72 anos, todas atendidas aos três meses, seis meses e um ano após o evento. As perguntas se concentraram em três áreas: vida profissional, sexual e socioemocional após a agressão. Os dados foram comparados com os de antes do ocorrido.

O estudo foi realizado no Hospital Municipal Odilon Behrens, referência em atendimento à mulher vítima de violência sexual. O atendimento é feito por equipe multidisciplinar, e a psicologia recebe destaque ao proporcionar um espaço terapêutico para a vítima.

Eliara ressalta o cuidado em preservar a integridade das pacientes. “É necessário o acolhimento digno e respeitoso com a identificação das necessidades do momento, escuta sem pré-julgamentos e imposição de valores. Um reconhecimento e aceitação das diferenças e valorização da fala”, explicou. Ela conta que esse espaço para a expressão do sofrimento é um facilitador para a reestruturação na vida da mulher. Outros elementos favorecedores são uma forte rede social, como bom vínculo afetivo com familiares e amigos, a religiosidade e o trabalho.

[caption id="attachment_42467" align="alignleft" width="281"]vulnerabilidade Ilustração: Juliana Guimarães[/caption]

Resultados

De acordo com o estudo, a invasão da intimidade sexual causa desestruturação na organização psíquica, na autoestima e na vida pessoal da vítima. A repercussão negativa na atividade sexual aconteceu na totalidade dos casos. Foi constatada a dor intensa na relação sexual, inibição do orgasmo, suspensão temporária e até mesmo abandono da atividade sexual. Outros sintomas emocionais frequentes foram tristeza, medo, introversão, ansiedade, irritabilidade, desânimo e hostilidade. As alterações psíquicas encontradas foram queda da autoestima, vergonha, hipervigilância, raiva/revolta, culpa e queda da memória.

Eliara explica que as lembranças são nocivas e podem parasitar a mulher com o retorno das emoções que a perturbam. Apesar de haver melhora com o passar do tempo, não houve recuperação total. “As consequências socioemocionais se mostraram evidentes no trabalho e estudo, incluindo o absenteísmo e a diminuição ou abandono da produtividade”, relatou.

Essa realidade, de acordo com ela, é a certeza de que a violência sexual não se resume a um quadro episódico. “A abordagem tecnicista dos agravos físicos é apenas a ponta de um grave problema que se manifestará ao longo da vida da mulher e que exige acompanhamento sistemático”, afirmou. “A grande complexidade ainda é o atendimento ao ser humano na medida de sua necessidade e na possibilidade de resolutividade”, completou.

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