Violência psicológica, física e sexual dentro de casa

Notícia publicada no Saúde Informa


Pesquisa realizada em Ribeirão das Neves alerta para alto número de casos de violência praticada contra mulheres por parceiros íntimos.


Estudo realizado com 470 mulheres de um município da Região Metropolitana de Belo Horizonte revela que 42,8% delas já sofreram agressões psicológicas, principalmente, pelos parceiros íntimos. Os dados foram obtidos através de um recorte da pesquisa do Programa de Promoção de Saúde e Prevenção da Violência na Atenção Básica, que analisou também a violência física e sexual às mulheres.

Em dissertação defendida junto ao Programa de Pós--Graduação em Promoção da Saúde e Prevenção da Violência da Faculdade de Medicina da UFMG, a gerente de Unidade de Saúde da Prefeitura de Belo Horizonte, Doriana Ozólio, buscou compreender e discutir a violência, especialmente a praticada pelo parceiro íntimo, contra as mulheres usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) do município de Ribeirão das Neves, Minas Gerais.

Em 2012, pesquisadores realizaram a coleta de dados, com mulheres recrutadas a partir das 53 Unidades Básicas de Saúde e de cinco Unidades Básicas de Referência. Elas tinham idade média de 37 anos, com idade mínima de 15 anos e máxima de 83, eram moradoras do município, a maioria casada ou com união estável, com tempo de escolaridade inferior a 8 anos.

“Todas as violências contra a mulher praticadas pelo parceiro tiveram uma prevalência alta, e isso foi assustador pra mim”, conta Doriana. Os percentuais de mulheres que sofreram violência física e sexual pelos parceiros íntimos foram de 26% e 11,7%, respectivamente. O que chamou sua atenção também foi a freqüência de ocorrência da violência física moderada, como empurrões, beliscões, que, muitas vezes, nem são considerados, pelas mulheres vítimas, como uma real agressão, e a violência física grave.

O consumo de bebidas alcoólicas também foi associado às agressões. O I Levantamento Nacional sobre Padrões de Consumo de Álcool no Brasil, realizado em 2005 e 2006, em 143 municípios brasileiros, apontou que, dentre a população que se declarou casada ou com união estável, 12% dos entrevistados relataram ter iniciado discussão ou briga com o parceiro enquanto bebiam. Entre as mulheres, que faziam uso de bebida alcoólica, 5,7% admitiram ter agredido fi sicamente o parceiro, enquanto 3,9% dos homens também admitiram esse fato.

[caption id="attachment_42849" align="alignleft" width="267"]box_é-violência-e-deve-ser-notificada Ilustração: Ju Guimarães[/caption]

 

Fatores de risco

Com o desenvolvimento do estudo, foi possível traçar alguns fatores de risco para a violência: a baixa escolaridade (somente 1,5% das mulheres possuía curso superior completo); a pobreza; vários parceiros sexuais; o uso nocivo do álcool; idade maior ou igual 37 anos; problemas de saúde; dor de cabeça ou enxaqueca; e se julgar violenta. A maioria das mulheres entrevistadas têm o parceiro como chefe da família e possuem como ocupação atividades não remuneradas, como ser dona-de-casa.

Medidas contra a violência

Em vigor há 8 anos, a Lei Maria da Penha, que pune as agressões contra a mulher, é uma das medidas legais para a punição desses casos. Porém uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou que a medida não diminuiu as taxas de mortalidade das mulheres por agressão no Brasil: a proporção de feminicídios por 100 mil mulheres em 2011 (5,43) superou o patamar visto em 2001 (5,41).

Para enfrentar o problema, Doriana propõe uma participação maior de todos os profissionais da saúde, em especial os da Atenção Primária à Saúde, bem como o médico ginecologista e obstetra. “Os médicos podem e devem se integrar aos diversos profissionais que estudam o problema, pois têm, no seu cotidiano, a oportunidade de tomar conhecimento das agressões no ambiente familiar ou fora dele. Eles devem realizar o adequado acolhimento: orientando, notificando, quando procurados após situações de violência e, principalmente, estando atentos ao problema que, nem sempre, será explicitado verbalmente pelas pacientes”.

As consequências da violência sofrida pela mulher vão desde agravos biológicos à dificuldade de socialização. As vítimas, muitas vezes, não buscam ajuda, seja por vergonha, dificuldade de acesso ou medo, e intervenções se tornam mais difíceis.

Premiação

Inscrita no 3º Congresso Nacional de Saúde da Faculdade de Medicina da UFMG, realizado entre os dias 3 e 5 de setembro de 2014, a pesquisa foi premiada no Eixo 4 – “Multifaces da violência: realidade e enfrentamento”.

 

Título: Violência provocada pelo parceiro íntimo: prevalência e fatores associados em usuárias da atenção primária à saúde na região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil

Nível: Mestrado Profissional

Autora: Doriana Ozólio Alves Rosa

Orientador: Victor Hugo de Melo

Programa: Promoção da Saúde e Prevenção da Violência

Defesa: 4 de julho de 2013

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