Abordagem da violência é incipiente na Atenção Básica de Saúde

Capacitação de profissionais é uma solução apontada por pesquisa

A Atenção Primária à Saúde (APS) funciona como porta de entrada dos indivíduos ao Sistema de Saúde e está inserida no contexto de vida da população. Trabalhando na APS desde 2005, a gerente de Unidade Básica e autora da pesquisa defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Promoção da Saúde e Prevenção da Violência da Faculdade de Medicina da UFMG, Elisane Adriana Santos Rodrigues lida com o desafio da Atenção Básica em abordar casos de violência apresentados por seus usuários.

Como parte do estudo “Promoção de Saúde e Prevenção da Violência na Atenção Básica de Saúde”, desenvolvido pelo Núcleo de Promoção de Saúde e Paz do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da UFMG desde o início de 2012, a pesquisa entrevistou 628 usuários e 300 profissionais da APS de 58 Unidades de Atenção Primária do município de Ribeirão das Neves. “Queríamos conhecer as percepções e vivências de profissionais e usuários acerca da violência nas regiões de atendimento e se eles acham que é função da APS a abordagem desta questão”, explica Elisane.

Segundo a pesquisadora, a abordagem da violência ainda é incipiente na Atenção Básica, já que o tema é pouco trabalhado nos cursos de graduação da área de saúde e apenas alguns profissionais da área de saúde atuam sobre ele. “Temos uma rotatividade grande de profissionais e é possível observar que eles estão despreparados para esse atendimento”, conta.

Os casos de violência chegam aos diversos serviços de Saúde, principalmente em hospitais, Unidades de Pronto Atendimento (Upas) e Unidades Básicas de Saúde. A autora explica que existe uma complexidade em receber essas ocorrências, por serem situações diversas, como casos de violência sexual ou física contra mulheres e crianças. Além disso,uma parcela significativa de usuários entrevistados, 35 %, não reconhecem na saúde a função de prevenção da violência, atribuindo a atividade à polícia e outros setores da sociedade.

“Os entrevistados que identificam esse papel veem como atividades de prevenção ações educativas, oficinas ou palestras. Poucas vezes foram apontadas abordagens à família ou usuários de drogas ou atendimento domiciliar. E nenhuma vez citada a importância da capacitação dos profissionais”, destaca.

Quanto à percepção da violência nas áreas da APS, 72% dos usuários disseram já ter presenciado a violência, enquanto o número ficou em 36% para os profissionais. “Isso mostra que é necessária a aproximação da APS da realidade, isto é, das reais necessidades do usuário”, indica.

É possível prevenir a violência?
Usuários e equipes de saúde que fizeram parte do estudo acreditam ser possível a prevenção da violência, mas somente os primeiros propuseram ações como abordagem ao agressor e a criação de grupos de apoio. “Eles sugerem também espaços de discussão, de interação da comunidade, apontando as lacunas dos sistemas de saúde hoje”, conta Elisane.

Para a pesquisadora, o grande diferencial da APS é a proximidade com as pessoas e suas realidades, e é preciso que os serviços básicos estejam atentos para identificar e abordar os casos de violência. Além disso, é essencial o acompanhamento dos casos. “Se um adolescente é vítima de violência sexual, por exemplo, precisamos abordar desde o atendimento clínico por equipe multidisciplinar, a notificação, o encaminhamento do caso ao conselho tutelar, acionar a rede de referência e posterior acompanhamento da família. Essas ações interromperiam o ciclo de violência em que ele vive”, argumenta.

A mudança está na capacitação
A pesquisa indicou que faltam profissionais capacitados e medidas de segurança na própria unidade de saúde, que o atendimento geralmente é rápido demais e o tempo de espera muito longo.

Para mudar este quadro, Elisane destaca a sensibilização e capacitação dos profissionais. “Eles costumam atribuir a outras especialidades a abordagem da violência, como exemplo, aos psicólogos. Mas todos os profissionais podem ser capacitados para atender a situações de violência”, ressalta. Segundo a autora, a atribuição da abordagem a categorias específicas provoca a falta de registros dos casos, prejudicando a visibilidade e abordagem do problema.

“Precisamos também de uma rede de proteção intersetorial consistente. A APS atua onde a violência se instala, ocorre e se desenvolve. Ela intervém sobre as necessidades da população e, se a violência é uma dessas necessidades, também deve conseguir trabalhá-la”, conclui.


Título:
  “Abordagem da violência na Atenção Primária è Saúde: correspondência entre as percepções e vivências de profissionais e usuários”
Nível: Mestrado
Autora: 
Elisane Adriana Santos Rodrigues
Orientadora: Elza Machado de Melo
Coorientador: Ricardo Tavares
Programa: Promoção da Saúde e Prevenção da Violência
Defesa: 29 de agosto de 2014

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