Hanseníase afeta físico e psicológico dos pacientes

Pesquisa mostra que o tratamento da doença deve ser multidisciplinar


A hanseníase é uma doença causada pela bactéria Mycobacterium leprae, transmitida pelo contato da via respiratória com a saliva ou secreções nasais de pessoas não tratadas. Os sintomas da enfermidade são manchas esbranquiçadas na pele e o aparecimento de caroços ou inchaços. Com tratamento adequado a doença deixa de ser contagiosa.

[caption id="attachment_49404" align="alignleft" width="300"]8038360 O atendimento deve incluir fisioterapeutas e ortopedistas para a reabilitação física do paciente. Foto: Banco de Imagem[/caption]

Oferecido pelo Sistema Único de Saúde, o tratamento da hanseníase é realizado principalmente para o combate do agente etiológico e dos sintomas, com o uso de antibióticos por pelo menos seis meses. Mas esse atendimento seria mais efetivo se multidisciplinar, também para o tratamento das incapacidades psicossociais causadas pela doença. É o que explica a pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde - Infectologia e Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da UFMG, Silvia Helena Lyon de Moura. “O ideal seria que o tratamento contasse sempre com terapeuta ocupacional e fisioterapeuta, por exemplo, que orientariam o hanseniano”, comenta.

Para ela, devido ao preconceito, esses pacientes podem adquirir comportamentos evasivos, evitando a convivência com outras pessoas. “Muitos deles sofrem de depressão e com dificuldade de participação social. Por isto, a necessidade de acompanhamento psicológico”, diz.

Para mostrar a importância desse atendimento completo, a pesquisadora avaliou 56 hansenianos no Centro de Referência em Dermatologia Sanitária do Hospital Eduardo de Menezes da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (HEM/Fhemig). Recolhidos em 2009 e 2010, por meio de questionários e exames físicos feitos aos pacientes no diagnóstico e na alta hospitalar, os dados mostraram os efeitos da atenção por médicos de diversas especialidades do Centro.

Tratamento vai além dos medicamentos

O Brasil é o segundo país em número de casos de Hanseníase no mundo – só em 2014, foram registrados 31.064 novos pacientes no país. Porém, segundo Silvia, além das questões sociais e psicológicas, as incapacidades físicas causadas pela hanseníase também merecem atenção. É comum a diminuição de sensibilidade nas mãos e pés, alterações de movimentos e alteração da musculatura esquelética, principalmente a das mãos, resultando nas chamadas “mãos em garra”. Assim, a enfermidade pode causar limitação nas atividades diárias.

“Percebemos dificuldades como abrir uma porta ou lidar com agulhas para costura”, conta a dermatologista. A pesquisadora aponta que as incapacidades físicas do paciente não melhoram, necessariamente, com o tratamento medicamentoso. “Desse modo, a atenção médica deve também incluir o atendimento de fisioterapeutas e ortopedistas para a reabilitação física do paciente”, afirma.

Incapacidades físicas estão ligadas à escolaridade

Comparando os questionários respondidos no momento do diagnóstico e da alta hospitalar dos pacientes do HEM/Fhemig, o estudo mostrou o efeito benéfico do tratamento multidisciplinar sobre as incapacidades físicas e transtornos psicossociais dos hansenianos. “Em todos os casos, os parâmetros melhoraram as capacidades sociais e físicas dos pacientes”, destaca Silvia.

A pesquisadora também comparou dados sobre as incapacidades e transtornos físicos dos pacientes com dados sociodemográficos e clínicos deles. Aqueles com menor escolaridade tiveram mais incapacidades físicas. “Uma das nossas hipóteses para isso é que as pessoas com melhor escolaridade veem mais cedo que precisam procurar atendimento. Elas também se preocupam mais com o cuidado com a saúde”, explica.

De acordo com ela, o tipo de abordagem usada no estudo é importante para reforçar a necessidade de um atendimento integral e mais direcionado para o apoio ao paciente, que cuide não só dos problemas físicos, mas de casos de limitação de convivência, de participação social e, principalmente, de eventuais quadros depressivos.

“São necessárias campanhas que incentivem o autocuidado, direcionadas principalmente aos pacientes idosos e àqueles com baixa escolaridade”, comenta. “Para diminuir o preconceito, também seriam importantes campanhas de esclarecimento sobre a hanseníase, para os familiares dos pacientes e toda a comunidade”, conclui.

Semana Mundial de Combate à Hanseníase

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a hanseníase é considerada um problema de saúde pública nos países quando tem mais de um caso por 10 mil habitantes, como no Brasil. A Semana Mundial de Combate à Hanseníase tem como objetivo conscientizar a população e reafirmar o compromisso de luta contra a doença. Para isso, são realizadas ações com intuito de alertar à comunidade sobre os sintomas da doença e incentivar a procura pelos serviços de saúde.

A semana termina sempre no último domingo de janeiro, “Dia Mundial de Combate à Hanseníase”, instituído pela OMS.

Confira a programação no site da Secretaria de Saúde de Minas Gerais.

 

Título: “Avaliação de comprometimentos físicos e transtornos psicossociais em pacientes com Hanseníase antes e depois do tratamento em um Centro de Referência Estadual de Minas Gerais”.

Nível: Doutorado

Autora: Silvia Helena Lyon de Moura

Orientador: Manoel Otávio da Costa Rocha

Coorientadora: Maria Aparecida de Faria Grossi

Programa: Pós-Graduação em Ciências da Saúde - Infectologia e Medicina Tropical

Defesa: 27 de agosto de 2015

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