O Açúcar é tão perigoso quanto o Tabaco

Em um artigo apresentado no dia 31 de outubro de 2016 no Medscape Pediatrics “Sugar Is the New Tobacco, so Let's Treat It That Way” por Aseem Malhotra, MBChB, MRCP destaca-se a urgente necessidade de se dar a devida importância ao elevado consumo de açucar pela população mundial, em especial as crianças, e estudar melhor os problemas de saúde relacionados a este elevado consumo.

Evidências mostram que o consumo excessivo de açúcares, pode comprometer a qualidade da alimentação impactando negativamente na saúde das pessoas. O açúcar é um carboidrato simples, por ser absorvido rapidamente pelo organismo, eleva os níveis de glicose de forma muito rápida, além de prejudicar a absorção das vitaminas e minerais presentes em outros alimentos.

Segundo o texto apresentado pelo autor uma análise econométrica de 175 países revelou que, para cada 150 calorias de açúcar disponíveis para consumo, houve um aumento de 11 vezes na prevalência de diabetes tipo 2 na população quando comparado com 150 calorias de outra fonte, como gordura ou proteína e independente do índice de massa corporal (IMC) e dos níveis de atividade física (1).

Com relação à população brasileira, segundo dados da Embrapa, o Brasileiro consome, em média, 55 Kg de açúcar por ano. A quantidade é 5 vezes maior que a recomendada pela OMS que é de 10 Kg/ano. Principalmente nas últimas décadas houve um aumento importante da ingestão de açúcar que, consumido em excesso, pode causar prejuízos equiparados ao álcool e ao tabaco (2). Paralelamente, a evolução dos padrões de consumo alimentar nas últimas 3 décadas evidenciou aumento de 400% no consumo de produtos industrializados nas regiões metropolitanas do Brasil (3). As tendências de evolução do padrão alimentar da população brasileira nestas últimas décadas são consistentes com a participação crescente de doenças crônicas não transmissíveis no perfil de morbimortalidade e, particularmente, com o aumento da prevalência do sobrepeso e da obesidade no país, evidenciado desde os anos 80 (4,5). A obesidade está associada a  problemas  relevantes  de saúde  na  população  pediátrica e  constituiu-se  fator  de risco para muitas morbidades e mortalidade na vida adulta (6).

Estudo de coorte realizado no Brasil, com três avaliações ao longo de 17 anos, que compreendia a infância até o início da fase adulta, constatou que as crianças com IMC elevado em todas as fases do estudo, ou seja,  permanentemente obesos, apresentaram na fase adulta maiores prevalências nas alterações de glicose, pressão arterial e HDL comparados ao grupo com IMC normal (p<0,05) (7).

Estratégias planejadas por alguns países como o Reino Unido de introduzir um imposto de 20% sobre as bebidas açucaradas a partir de 2017 são muito importantes. Esta ação é bem condizente com os recentes apelos da Organização Mundial de Saúde (OMS) com o objetivo de conter as epidemias globais de obesidade e diabetes tipo 2. Interessante a abordagem do autor no sentido de que não devemos esquecer que o declínio substancial do consumo de tabaco nas últimas três décadas, que foi o fator mais importante que levou a uma diminuição da mortalidade cardiovascular durante esse período, só aconteceu após medidas legislativas que visavam a acessibilidade, disponibilidade e aceitação de Fumar (8).

Além destas medidas muito importantes não se pode esquecer a relevância negativa da mídia sobre o aumento deste consumo e a importância de esclarecer os fatos envolvendo as grandes indústrias como no caso do açúcar (9,10). A partir do momento que se compreende a realidade dos fatos é possível ter noção da gravidade da situação e assim estabelecer metas que sejam mais adequadas para beneficiar a população. Na população brasileira, as práticas alimentares vêm se alterando nas últimas décadas sendo a publicidade um dos fatores que contribuem para esta situação. Frente à polêmica sobre crianças e adolescentes serem alvos de anúncios publicitários, alguns países da Europa já proibiram propagandas voltadas para este público (11). Essa iniciativa se deve ao fato de que as crianças não possuem senso crítico para compreender o conteúdo das propagandas, tendo em vista as estratégias cada vez mais persuasivas utilizadas pelos profissionais de marketing. Frequentemente elas confundem programa de televisão com a mensagem publicitária, fato que se agrava ainda mais quando são utilizados personagens nos produtos comercializados (12,13).

Neste sentido, fica evidente a importância das Universidades no sentido de embasar a população com artigos científicos que esclareçam os malefícios do açúcar e sua relação com as doenças atuais. Somente com conhecimento e esclarecimento é possível mobilizar e também contar com o apoio dos governantes para estabelecer estratégias públicas que possam realmente beneficiar a população e não o interesse pessoal das grandes indústrias.

 

  1. Basu S, Yoffe P, Hills N, et al. The relationship of sugar to population-level diabetes prevalence: an econometric analysis of repeated cross-sectional data. PLoS One. 2013;8:e57873.

  2. World Health Organization. Food and Agriculture Organization [WHO/FAO]. Diet, nutrition and the prevention of chronic diseases. Geneva; 2003. [WHO - Technical Report Series, 916]

  3. Levy-Costa RB, Sichieri R, Pontes NS, Monteiro CA. Household food availability in Brazil: distribution and trends (1974-2003). Rev S Publ, 2005;39(4) 530-40.

  4. Monteiro CA, Benicio MHD'A, Conde WL, Popkin BM. Shifting obesity trends in Brazil. Eur J Clin Nutrit 2000;54:342-6.

  5. Sichieri R, Coitinho DC, Leão MM, Recine E, Everhart JE. High temporal, geografic, and income variation in body mass index among adults in Brazil. Am J Public Health 1994;84(5):793-8.

  6. Weiss R, Dziura J, Burgert TS, Tamborlane WV, Taksali SE, Yeckel CW, et al. Obesity and the metabolic syndrome in children and adolescents. N Engl J Med. 2004; 350 (23): 2362-74.

  7. Fonseca FL, Brandão AA, Pozzan R, Campana EMG, Pizz OL, Magalhães MEC, et al. Overweight and cardiovascular risk in youth. Arq Bras Cardiol. 2010; 94 (2): 193-201.

  8. Royal College of Physicians. Fifty years since Smoking and health: Progress, lessons and priorities for a smoke-free UK. Report of conference proceedings. London: RCP; 2012. https://www.rcplondon.ac.uk/sites/default/files/fifty-years-smoking-health.pdf Accessed October 26, 2016.

  9. Kearns CE, Schmidt LA, Glantz SA. Sugar industry and coronary heart disease research. a historical analysis of internal industry documents. JAMA Intern Med. Epub September 12, 2016. doi:10.1001/jamainternmed.2016.5394.

  10. O'Connor A. How the sugar industry shifted blame to fat. The New York Times. September 12, 2016. http://www.nytimes.com/2016/09/13/well/eat/how-the-sugar-industry-shifted-blame-to-fat.html Accessed October 27, 2016.

  11. Sampaio ISV. Televisão, Publicidade e Infância. 2ª ed. São Paulo: Annablume; 2004.

  12. Rio de Janeiro. Secretaria Municipal de Saúde. Instituto de Nutrição Annes Dias. Propaganda de Alimentos para crianças e adolescentes. Semana da Alimentação Escolar. Prefeitura do Rio de Janeiro, 2007. www.saude.rio.gov.br/semana_alimentacao_2007_layout.pdf

  13. HENRIQUES, Patrícia et al . Regulamentação da propaganda de alimentos infantis como estratégia para a promoção da saúde. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro , 17, n. 2, p. 481-490,  Feb.  2012 .   <http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232012000200021&lng=en&nrm=iso>. access on  23  Nov.  2016.  http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232012000200021.


Texto escrito por:
Clésio Gontijo do Amaral (Gontijo-Amaral, C)
Professor Adjunto do Departamento de Pediatria da UFMG

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