Refletindo sobre anticoncepção e proteção

Em 2016, após a publicação do artigo “Efficacy and Safety of an Injectable Combination Hormonal Contraceptive for Men” no “The journal of clinical endocrinology & metabolism”, uma nova forma de anticoncepção foi muito comentada: o contraceptivo hormonal masculino. Estudos foram realizados utilizando injeções intramusculares de testosterona sintética e enantato de noretisterona, que é um derivado de progesterona e estrogênio, aplicadas a cada 8 semanas. No entanto, tal experimento foi interrompido devido aos inúmeros – e inesperados- efeitos colaterais, que foram desde aumento da libido e ocorrência de acne até alterações no humor e comportamento.

Além dos efeitos colaterais, é importante levantar que alguns aspectos culturais da sociedade podem levar a certa resistência por parte dos homens ao uso do anticoncepcional, com a falsa crença de que esse poderia levar à impotência ou infertilidade. Nesse ponto, é fundamental esclarecer que todo medicamento novo passa por um processo meticuloso antes da aprovação, para garantir sua segurança e eficácia bem como para estabelecer as indicações, os possíveis efeitos adversos e suas contraindicações.

Apesar da interrupção do estudo, é provável que em certo tempo o anticoncepcional masculino seja uma realidade no dia-a-dia da população, de forma a acrescentar mais uma opção para se evitar uma gravidez indesejada às já existentes, como a camisinha e o contraceptivo hormonal feminino, seja a pílula ou adesivo transdérmico, o dispositivo intrauterino (DIU) e o diafragma. Vale ressaltar que, desses métodos, apenas o preservativo, seja ele masculino ou feminino, é capaz de prevenir as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

As DST’s representam um quadro preocupante na atualidade pois, mesmo com toda propaganda informativa e o reconhecimento da necessidade de uso de camisinha, o Brasil apresenta uma epidemia de sífilis. Da mesma forma existe a preocupação a AIDS, já que o número de pessoas com o vírus do HIV que havia diminuído, aumentou significativamente. Uma hipótese que justifica o fato é a de muitas pessoas se preocuparem com uma possível gravidez e negligenciarem todas as possíveis doenças que permeiam a relação sexual sem proteção, que vão desde infecções simples até um estágio de imunodeficiência sem cura ou tratamento.

Entre as DST, a sífilis vem se destacando, pois seus números voltaram a crescer no Brasil. Sua transmissão se dá através de contato sexual ou passada da mãe para o filho. Ao contrário do que se pensa, a sífilis afeta todas as camadas sociais, tendo como grande fator o comportamento sexual de risco, aquele sem uso de preservativo e com um grande número de parceiros. À exemplo disso, em 2015 no Brasil, dos 65.878 novos casos notificados de sífilis, a maioria ocorreu na região Sudeste (56,2%) e afetando pessoas na idade entre 20 aos 39 anos (55%). Além desses dados,o Ministério da Saúde indicou um aumento de 32,7%, entre 2014 e 2015, de casos de sífilis em adultos no Brasil.

Como as doenças sexualmente transmissíveis continuam a crescer no país, uma das formas de promover a prevenção da população é alertar sobre suas consequências. Dentre as consequências graves das DSTs estão a infertilidade e o câncer, que podem acomete cérvix, pênis e regial anal. Além disso, estudos mostram que pessoas que já apresentam alguma DST tem o risco aumentado de contrair o vírus HIV.

O aumento de casos de DST/HIV foi observado nos últimos anos com transmissão frequente entre os jovens e taxas crescentes entre as mulheres. Percebe-se uma maior vulnerabilidade entre os jovens pelo maior número de parceiros sexuais quando comparado às mulheres. Estas, são mais acometidas devido à própria anatomia, e em alguns casos, pelas dificuldades de diálogo com o parceiro, não conseguindo conciliar outros métodos anticoncepcionais com o uso do preservativo.

A possibilidade do anticoncepcional masculino, ainda que traga benefícios em relação ao planejamento familiar, aumenta a preocupação no que diz respeito à um certo descaso quanto aos métodos de barreira, que pode acarretar em uma falsa sensação de proteção masculina. Com isso em mente, torna-se fundamental que a divulgação do método contraceptivo masculino, caso seja aprovado, seja envolto por uma série de campanhas de conscientização que reforcem a importância do uso de preservativos e que deixem claro que os métodos hormonais são ineficazes na proteção contra DSTs.

Com o exposto, vale reforçar: “é melhor prevenir que remediar”, ou seja, deve-se fazer uso do preservativo independentemente de outro método contraceptivo.

 

Fontes:

“Hormonal, chemical and thermal inhibition of spermatogenesis: contribution of French teams to international data with the aim of developing malecontraception in France” Soufir, Jean-Claude Basic and Clinical Andrology, 2017, Vol.27
Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Guia de vigilância epidemiológica. 7 ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2009. 813p. (Série A. Normas e Manuais Técnicos).

Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Programa Nacional de DST e Aids. Protocolo para prevenção de transmissão vertical de HIV e sífilis: manual de bolso. Brasília: Ministério da Saúde; 2007. 180p.

http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2016/11/anticoncepcional-masculino-e-adiado-por-terreacoes-semelhantes-ao-feminino.html

Agência Brasil, Paula Laboissière. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-11/casos-de-sifilis-voltam-aumentar-no-brasil>.

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