Agravos Não Intencionais por Intoxicações e Envenenamentos em Crianças e Adolescentes

As causas externas, que incluem agravos intencionais e não intencionais, são a terceira causa de internação hospitalar de crianças e adolescentes no Brasil. Segundo o Datasus, em 2014, aproximadamente um terço (30%) das mortes em menores de 20 anos ocorridas no país foram devidas a causas externas; estas atingiram percentuais de 75,8% das mortes na faixa etária de 15 a 19 anos, 44,5% de 10 a 14 anos, 32,3% de cinco a nove anos, 22,3% de um a quatro anos e 2,6% em menores de um ano. No mundo, as principais causas de morte por agravos não intencionais em menores de 18 anos são pela ordem: acidentes de trânsito, afogamentos, queimaduras, quedas e envenenamentos.

Considerando apenas os acidentes com produtos químicos, estima-se que em todo mundo, 45.000 crianças morrem anualmente vítimas de envenenamentos. As crianças com menos de cinco anos são as mais vulneráveis a esse tipo de acidente; isso ocorre, dentre outros fatores, pelo fato delas explorarem os ambientes com seus sentidos – olfato, paladar, tato, visão e audição – e não possuírem a noção de risco. Devido à menor estrutura corporal e ao metabolismo mais acelerado, a intoxicação em crianças pode ter consequências mais sérias quando comparada a de um adulto. Os medicamentos constituem uma das principais causas de intoxicação em qualquer idade, seguidos pelos produtos de uso domiciliar, tais como o hipoclorito de sódio.

Levantamento epidemiológico realizado na Unidade de Toxicologia do Hospital João XXlll CIAT-BH descreveu o atendimento de cerca de 13.293 pacientes no ano de 2015, estudo este liderado por Maria de Fátima Eyer Cabral Cardoso e Délio Campolina, respectivamente bioquímica e médico coordenador da unidade. Observou-se grande número de crianças e adolescentes (5.656) atendidos no Hospital, com a faixa etária de um a cinco anos sendo responsável por cerca de 22,5% de todos os atendimentos realizados pelo Serviço de Toxicologia. Produtos químicos comumente encontrados no ambiente doméstico, como hipoclorito de sódio, representam 40% das intoxicações por agentes cáusticos, sendo a maioria destes acidentes (58,3%) descritos em crianças até cinco anos de idade. Possivelmente o armazenamento dos produtos de limpeza doméstica em locais impróprios contribui para o grande número de acidentes por produtos domissanitários, apontando para cuidados especiais com relação à prevenção desse tipo de acidente na infância.

 

Para evitar intoxicações e/ou envenenamentos, recomenda-se:

• Estocar produtos químicos como medicamentos, inflamáveis, cosméticos, artigos de higiene e produtos de limpeza fora da vista e do alcance das crianças. De preferência, trancados;
• Manter produtos químicos e materiais de limpeza em suas embalagens originais;
• Preferir produtos com tampas de segurança, difíceis de abrir;
• Guardar medicamentos de adultos e de crianças em locais separados;
• Verificar sempre a validade dos medicamentos e dos produtos industrializados;
• Não preparar remédios à noite com a luz apagada;
• Explicar às crianças o risco de mexer com produtos perigosos;
• Pilhas e baterias esféricas devem ser descartadas em locais apropriados;
• Não passar venenos ou pesticidas na cabeça das crianças para matar piolhos;
• Não manter crianças em locais onde está sendo usado ou foi recentemente aplicado agrotóxico;
• Não aguardar embalagens inutilizáveis;
• Evitar ter plantas tóxicas em casa ou nos arredores;


 

Em caso de intoxicações e/ou envenenamentos, recomenda-se:

• Caso o veneno estiver no ar, manter o ambiente ventilado e retirar pessoas e animais do local contaminado. Ao prestar socorro às vítimas, se proteger com máscaras e luvas;
• Se houver contato com a pele, retirar roupas e calçados da vítima. Lavar a pele com água abundante, sem esfregar;
• Se houver contato com os olhos, lavar o local com bastante água corrente ou soro fisiológico e procurar um oftalmologista;
• Se houver ingestão, não provocar vômito quando a vítima estiver sonolenta ou inconsciente; se envolver vítima menor de dois anos de idade; se o produto for inseticida líquido, derivados do petróleo, solventes, ácidos e bases. Levar o produto ou o nome do mesmo que causou intoxicação ao local onde o paciente será atendido.



Todas as intoxicações e envenenamentos são potencialmente sérios, portanto entre em contato com o Disque intoxicação 0800 7226 001 ou com o Centro de Informação e Atendimento Toxicológico (CIAT) de referência. Em Minas Gerais, os telefones são: (31) 3224-4000; (31) 32399308 e (31) 3239-9390.


 

Referências:

  • CARDOSO, MFEC.; CAMPOLINA, D. Epidemiologia dos atendimentos realizados na Unidade de Toxicologia do HJXXXlll / CIAT-BH da FHEMIG no ano de 2015. Unidade de toxicologia do Hospital João XXlll – CIAT-BH. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. 2015.

  • MENDONÇA, ML.; ISHITANI, LH.; WAKSMAN, RD. Prevenção de Acidentes na Infância e na Adolescência. In: LEÃO, E. Pediatria Ambulatorial (et al). Belo Horizonte: Coopmed, 2013. cap. 17, p. 269-290.


Autoria: Victor de Jesus Oliveira
Orientação: Fabiana Maria Kakehasi, Adebal de Andrade Filho

Belo Horizonte, 05 de abril de 2017

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trombose de veia porta após cateterismo venoso umbilical: revisão da epidemiologia, profilaxia, diagnóstico e tratamento

Variabilidade da frequência cardíaca pode determinar risco de morte nasepse

Raquitismo